Tradução e Xamanismo: Em Busca de Vidas secas pelos caminhos de Ñapirikuli e as Amarunai.

João Paulo Ribeiro

Resumo


Em uma experiência de tradução de Vidas secas, obra literária de Graciliano Ramos ([1938] 2015), para língua indígena, o habitus do tradutor foi uma poética da relação enquanto lugar do “grande encontro” que ocorre por força das íntimas ligações.  Foi através de reflexões-caminhos pelas narrativas sobre Ñapirikuli e as Amarunai enquanto uma prática de manejo de mundo que esta o grande encontro. Estamos a relacionar Xamanismo e Tradução pela aplicação do Perspectivismo Multinaturalista.


Palavras-chave


Poética do traduzir; Xamanismo; Noroeste Amazônico; Perspectivismo Multinaturalista

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Referências


“O trabalho do xamã, sua esfera de competência, é essa tentativa de reconstrução do sentido, de estabelecer relações, de encontrar íntimas ligações” (CARNEIRO DA CUNHA, 2009, p. 109).

“A paisagem de tua palavra é a paisagem do mundo. Mas a sua fronteira está aberta”. (GLISSANT [1990] 2011, p.40).

“(...) uma concepção segundo a qual o mundo é composto por multiplicidade de pontos de vista: todos os existentes centros potenciais de intencionalidade, que aprendem os demais existentes segundo suas próprias e respectivas características ou potências.” (VIVEIROS DE CASTRO, [2009] 2015, p.42).

“O xamanismo ameríndio pode ser definido como a habilidade manifesta de certos indivíduos de cruzar deliberadamente as barreiras corporais ente as espécies e adotar a perspectiva de subjetividades “estrangeiras” (...) ” (VIVEIROS DE CASTRO, [2009] 2015, p.49).

“(...) o que chamamos “sangue” é a cerveja” do jaguar, o que tomamos como um barreiro lamacento os tapires experimentam como uma grande casa cerimonial, e assim por diante” (VIVEIROS DE CASTRO, [2009] 2015, p.53).

A afinidade potencial remonta a esse fundo de socialidade metamórfica implicado no mito: é por isso que as grandes narrativas de origem, nas mitologias indígenas, põem em cena personagens ligados paradigmaticamente por aliança transnatural: o protagonista humano e o sogro urubu, o cunhado queixada, a nora planta e assim por diante” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p.420).

São Gabriel da Cachoeira, Alto Rio Negro, estado do Amazonas, a 1.000 km (por rio) de Manaus. Por aqui passou Ñapirikoli, o ancestral baniwa, o herói criador que conquistou a primazia desta humanidade enfrentando os macacos da noite e o povo-jaguar. Descendo o rio Içana desde sua maloca em Kerhipani, à beira do igarapé Jawiari, Ñapirikoli perseguiu as mulheres que lhe roubaram as flautas Kowai, até onde hoje está localizada a cidade de São Gabriel da Cachoeira. Aqui, o herói transformou-se em cobra para alcançá-las, mas as mulheres mataram a cobra – sem ferir a Ñapirikoli – e seguiram na direção do grande mar, de Manaus, onde por fim ele encerrou a perseguição, fincando sua borduna baaraita na terra. A riqueza de Manaus provém dessa borduna, que era de ouro. As mulheres, então, espalharam-se pelo mundo, até o outro lado do céu, levando consigo os conhecimentos das flautas – que implicam a fabricação de todo tipo de material e equipamento – e entregou-os aos brancos. Ñapirikoli voltou, então, para a sua maloca e descansou (XAVIER, 2008, p.9).


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